Rio 2C: Kizuyume descobre mais sobre o mercado independente de quadrinhos no Brasil
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Na última semana aconteceu a 8ª edição do Rio2C, na Cidade das Artes, na Barra da Tijuca. O evento reuniu empresas, artistas, especialistas e profissionais da economia criativa para discutir inovação, audiovisual, música, games, publicidade, tecnologia e cultura. Foram muitas marcas presentes, como Netflix, Disney, Toei Animation e L'Oréal Paris, além de patrocinadores como Globo, RioFilme, C&A e Petrobras, cada uma deixando sua marca de forma única dentro do evento.
A Kizuyume teve a oportunidade de participar do Rio2C no último sábado (30), junto da Croma Studio e da Sapiens Madu, acompanhando palestras, mesas de debate e tendências que dialogam diretamente com o cenário independente dos quadrinhos e da literatura.
Durante o evento, conseguimos entrevistar Fábio Almeida, sócio da Join Entretenimento, e Thiago Rocha, Diretor de Assistência Técnica do Ministério da Cultura. Também tivemos a oportunidade de fazer uma pergunta ao roteirista e criador audiovisual Edu Araújo durante sua participação no palco Sound Beats III.
"Roteirista escuta mais do que escreve"

A primeira mesa que acompanhamos foi "Tem Roteiro Nisso? Como Prender a Atenção e Criar Conexões Reais Com o Público", com Edu Araújo e Thais Belchior.
Entre os diversos pontos abordados, uma frase chamou atenção:
"O roteirista escuta mais do que escreve."
Segundo Edu, personagens memoráveis não surgem apenas da imaginação, mas da observação constante das pessoas e do mundo ao redor. Para ele, um dos maiores erros na escrita é fazer todos os personagens falarem da mesma forma, sem diferenças de personalidade, repertório ou visão de mundo.
Durante a conversa, Edu destacou que o trabalho do roteirista exige curiosidade permanente. Observar conversas no transporte público, prestar atenção em expressões usadas pelas pessoas e até acompanhar comunidades específicas nas redes sociais podem servir como pesquisa para tornar diálogos mais autênticos.
Após o bate-papo, perguntamos como um roteirista pode criar vozes distintas para personagens fictícios quando não possui familiaridade com determinado universo.
Em resposta, Edu explicou que a pesquisa é fundamental. Quando possível, ele recomenda conversar diretamente com pessoas que vivem aquela realidade. Caso isso não seja viável, plataformas como TikTok, podcasts, entrevistas e vídeos podem ajudar a compreender a forma como diferentes grupos se expressam.
Mas sua principal recomendação foi simples:
"Vá para a rua."
Para ele, observar pessoas reais continua sendo uma das ferramentas mais valiosas para quem deseja escrever personagens convincentes. A curiosidade sobre como as pessoas falam, se vestem, pensam e se relacionam acaba se transformando em matéria-prima para boas histórias.
Em uma época em que diversas ferramentas facilitam a produção de conteúdo, a capacidade de observar comportamentos humanos continua sendo um dos maiores diferenciais para quem deseja criar narrativas capazes de gerar conexão genuína com o público.
"Ninguém se forma dentro de uma grande estrutura"

Outra conversa que chamou nossa atenção foi a mesa "Como Transformar Seu Interesse por Cultura em uma Profissão Estratégica e Lucrativa na Economia Criativa?", que reuniu Fábio Almeida, Gringo Cardia e Rafa Ventura.
Após o encerramento do bate-papo, perguntamos a Fábio se ainda existe espaço para criadores independentes construírem carreira sem depender de grandes empresas.
A resposta foi direta:
"Existe espaço, inclusive é de onde tudo se forma."
Segundo Fábio, nenhum artista nasce dentro de uma grande estrutura. O que diferencia quem cresce é a busca constante por conhecimento.
Para ele, antes mesmo do networking, é preciso construir conexões de conteúdo, estudar o mercado e entender como o setor funciona.
"O que vai te dar mais musculatura é a sua sede de conhecimento."
Ao falar sobre quadrinhos, literatura e produção visual, Fábio destacou que hoje existem diversos editais, programas de formação e oportunidades espalhadas pelo país. Porém, também alertou que viver de arte exige desenvolver habilidades além da criação.
"Você tem que aprender um pouco de edital, um pouco de jurídico, um pouco de logística e um pouco de matemática financeira."
Para quem está começando, a recomendação foi aproveitar as ferramentas digitais para buscar oportunidades, criar conexões e expandir repertório sem ficar limitado pela própria localização.
Ao final, deixou uma visão realista, mas otimista:
"Eu queria te dizer que é mais fácil do que é. Não, não é fácil. Mas será mais sólido."
Lei Rouanet é só para grandes artistas? Ministério da Cultura responde

Encerrando nossa cobertura, tivemos a oportunidade de conversar com Thiago Rocha após a palestra "O Efeito Lei Rouanet: o Novo Desenho do Fomento Cultural no Brasil".
Perguntamos sobre uma dúvida recorrente entre artistas independentes:
"Muitos artistas independentes veem a Lei Rouanet como algo muito distante. Qual é o maior mito que você gostaria de desmistificar e o que pode aproximar esses artistas da lei?"
Segundo Thiago, um dos maiores equívocos é acreditar que a Lei Rouanet representa desperdício de dinheiro público.
"Hoje temos um estudo da FGV mostrando que investir na Lei Rouanet é investir na cultura, na economia e no desenvolvimento do país."
Outro mito recorrente é a ideia de que o mecanismo seria acessível apenas para artistas famosos ou grandes produtores.
"A Rouanet não é só para quem já é grande. Mesmo quem nunca apresentou um projeto pode participar."
Segundo ele, a plataforma conta com materiais explicativos, vídeos e orientações para auxiliar novos proponentes durante o processo.
Thiago também destacou que a captação de recursos continua sendo um desafio, mas afirmou que o Ministério da Cultura tem ampliado as oportunidades por meio de editais e parcerias com patrocinadores.
Durante a entrevista, ele revelou uma novidade que ainda não havia sido amplamente divulgada:
"Ainda neste semestre será lançado o maior edital de fomento da história da Petrobras, com mais de R$ 250 milhões destinados a todas as linguagens artísticas."
Além disso, o Ministério vem desenvolvendo iniciativas específicas para ampliar o acesso ao incentivo cultural, como os programas Rouanet Norte, Rouanet Nordeste e os futuros Rouanet Centro-Oeste, Rouanet Juventude e Rouanet Favelas.
A mensagem final deixada por Thiago para os artistas independentes foi clara:
"Não caia nessa ideia de que a Lei Rouanet não é para você. Inscreva seu projeto, participe dos editais e tente."
O que levamos do Rio2C

Entre palestras, entrevistas e conversas pelos corredores da Cidade das Artes, uma mensagem apareceu de diferentes formas ao longo do evento: criar é importante, mas continuar aprendendo é indispensável.
Seja observando pessoas para construir personagens mais reais, estudando para fortalecer uma carreira independente ou buscando oportunidades em editais e políticas de incentivo, o conhecimento continua sendo uma das ferramentas mais poderosas para quem deseja viver de arte.
Para nós da Kizuyume, o Rio2C não foi apenas uma oportunidade de acompanhar o mercado criativo de perto, mas também uma chance de enxergar como os desafios enfrentados por artistas independentes são compartilhados por criadores de todo o país — e como existem cada vez mais caminhos para transformar ideias em projetos, e projetos em realidade.
Redação: Kaike Costa







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